Niterói - 15 de maio de 2016
Hoje conhecemos o Gustavo, que aos 13 anos passava a noite, que deveria ser numa cama, na porta de uma loja de conveniência de posto. Gustavo foi arredio, como quem não precisasse de conversas àquela hora - e não precisava mesmo, era a gente que precisava. Perguntei se Gustavo estava com fome e se queria algo pra comer, e ele, contrariando todos os gostos dos meninos de 13 anos, me disse que não.
Insistimos, sentamos ao seu lado e fizemos perguntas, idiotas para quem conhece a realidade, mas tão amargas para nós que tivemos sempre tudo.
- Você estuda?
- Não
- Você tem irmãos?
- 7
- Eles estão na escola?
- Só as duas mais novas.
O papo seguiu, e Gustavo, sem paciência, nos explicou sua dura realidade, como quem tivesse explicando pela enésima vez uma conta de somar a uma criança.
É tão simples a dureza pra você Gustavo, mas nos perdoe a ignorância de não saber nada das ruas. Nada da luta de uma família que sobrevive, apenas.
Gustavo queria voltar a estudar, mas sua mãe perdeu os documentos e ele tem que ajudar na renda.
Gustavo gosta de jogar futebol e soltar pipa, mas tem que ajudar na renda.
Gustavo só queria ser um menino de 13 anos, mas tem que ajudar na renda.
Gustavo cansou das perguntas chatas, se despediu e foi encontrar a mãe, que dormia ali perto.
Gustavo tem que voltar pra casa da tia amanhã, em Caxias, para levar um dinheiro pra ajudar na carne.
Gustavo foi embora, nos achando tolos por beber até a madrugada e indagar a crianças sofridas o óbvio.
Gustavo levou um chocolate e prometeu dividir com os irmãos se eles estivessem acordados, caso contrário comeria todo sozinho.
Gustavo não sabe o que quer ser quando crescer.
Gustavo não tinha fome.
Não de comida.
Mas ele não tem tempo, tem que ajudar na renda, porque as irmãs o esperam e o movimento domingo no sinal é fraco.
Nos despedimos falando para que o Gustavo voltasse a estudar, ele apenas sorriu e foi embora, concluindo que nós não fôssemos entender mesmo o sistema.
E não entendemos.
Desculpa Gustavo, mas nós não entendemos.
sexta-feira, junho 14, 2019
terça-feira, dezembro 13, 2016
Café pra um
Já era quase verão, mas a noite ainda estava fazendo frio. Não sei exatamente quanto o termômetro marcava, mas sabia que meu frio não era compatível com a temperatura do lado fora. Era um frio meu, vinha de dentro.
Meu pé estava gelado e eu passei a noite inteira procurando seu para aninhar o meu, mas só achava o meu travesseiro extra na beirada da cama, quase caindo. Eu sei que foi muito pouco tempo que esteve aqui, mas eu me acostumei rápido.
Há dias levanto querendo café quente, pão fresco e risadas sobre a noite anterior, mas eu não tenho assunto e eu não tenho ninguém. Conformo-me em tomar café com o atendente da padaria. Sei que parece impessoal e solitário, mas ele é meu garçom preferido versão matinal: mais fiel que você.
O cheiro que você deixou por aqui já estava no final. Precisava me concentrar para inspirar um pouco da lembrança dos dias que você permeou pelo meu leito.
Ontem tudo acabou.
Foi dia de faxina.
Agora seu cheiro é só amaciante, em fronhas e lençóis que nunca lhe couberam.
sábado, janeiro 30, 2016
E por falar em você, onde anda a saudade?
Definitivamente eu escolhi o quarto errado nesta casa para
dormir. Mesmo estando no quinto andar o barulho do interfone vem direto pela
minha janela. Isso não seria grandes problemas se eu não esperasse todo dia por
você. Ouço o barulho, conto dez segundos e fico na expectativa do porteiro ligar.
Mas, de novo, é só o vizinho chinês do andar de baixo.
A cama ficou grande, e minhas pernas não cansam de procurar
as suas para se entrelaçar pela madrugada. Nunca fui fã de conchinha, mas
pernas entrelaçadas me asseguravam que você estava ali.
Está tudo bagunçado, e eu queria que isso fosse apenas seu
tênis e tablet depositados em lugares estranhos, mas a bagunça tá por dentro. Tem
bagunça, tem dúvida, tem insônia, só não tem você.
E você pode estar achando todas essas palavras feitas de um
pieguismo sem fim, e são, concordo. Mas não se exige muito de corações e mentes
sobrecarregadas. Além do mais, não se fala do simples sem ser óbvia.
Não que seja simples falar disso, mas é que... ah, não sei.
Tem confusão também, tá vendo? Tem bagunça, dúvida, insônia, confusão e uma falta
só minha.
Você eu sei onde andas, mas e a sua saudade, ela nunca mais
vai te trazer aqui de novo?
quarta-feira, dezembro 16, 2015
A beleza das flores ao chão
Das paixões o que mais eu
gosto é essa efemeridade. Essa urgência, esse corre-corre, porque se não correr
evapora tudo. As paixões são carruagens que já já virarão abóbora, ou se vai
pro baile com ela e volta meia noite, ou fica em casa pagando de gata borralheira
sem se divertir.
Ainda ontem eu estava
querendo encontrar você. Comecei a assistir um filme do Tarantino, mas não
tinha você do lado para eu reclamar que tinha muito sangue, desisti. Senti falta
da implicância mútua e de sempre descer correndo as escadas porque você não
avisou que estava chegando um quarteirão antes para eu já te esperar na
portaria.
Mas hoje eu acordei
disposta, tomei meu café e caminhei tentando me encontrar. Encontrei, me
encontro sempre que me esforço. Refleti sua presença e sua falta. Escolhi as
lembranças. Acabou, completou seu ciclo. Finalizou.
Penso no termo “viver por completo” e entendo que acabar é isso, a finitude não me assusta, só conclui. A paixão é um sopro, um florescer de flamboyant no fim da primavera. Breve, quente e belo.
Das coisas efêmeras da vida o que eu mais gosto são as paixões. E das flores caídas aos pés dos flamboyants na chegada do verão também, claro!
sexta-feira, setembro 18, 2015
Eu tive um sonho
Era um dia ensolarado, com uma brisa leve, dessas que nos acarinha
o rosto e bagunça ao leve o cabelo. Aos meus pés havia uma imensidão que me
separava do mar, que de tão azul camuflava o horizonte e se juntava ao céu,
provocando uma certeza de que tudo é mesmo um grande infinito.
Estar ali em cima me fazia pequena, mas com uma
possibilidade de ser enorme. Eu mantinha a espinha ereta e sorria, sem
precisar fazer esforço para relaxar. Diante de tanta incerteza, de tantas
amarras do medo, era a absoluta certeza de um mergulho exato, a fonte da
minha calma.
Era um passo à frente para encarar o nada e ganhar tudo. Um
vazio repleto de tudo. Uma contradição. Um balé no ar, uma acrobacia
controlada, por mais que se jogar envolvesse nenhum controle.
Para aos que olhavam eu caia, para mim eu voava. Para os que
olhavam eu morria, enquanto pra mim eu começava a viver. A vida entrou em slow motion
para que eu tivesse tempo de aproveitar cada metro da delícia que é se jogar.
Você não teve coragem de pular comigo, ficou de algum canto
se perguntando se eu ia mesmo fazer aquilo. Deu tempo para que você se
arrependesse, mas você não pulou. Me encontrou no ar, me abraçou e me levou para
terra firme, aquele lugar chato que você gosta de se sentir seguro.
Foi um abraço tímido, um beijo roubado e uma decisão rápida.
Monte seu acampamento no solo, eu estou subindo de novo. Eu sou ar e você
terra, um dia, em outro sonho qualquer, a gente se encontra na água.
segunda-feira, maio 25, 2015
Sobre flores e cores
Pra ler ouvindo ♪
Ontem mesmo, depois de um longo hiato ele resolveu aparecer, com aquele ar de quem nunca tinha ido embora e ao mesmo tempo aquele escudo que não deixa ninguém aproximar mais que um aperto de mãos. De novo ele ainda é o mesmo. O mesmo durão, cheio de neuras, de cara emburrada e ar de quem não se importa. De novo ele ainda é o mesmo. O mesmo inseguro, cheio de sonhos, de olhar vago e ar de quem se sente só.
Talvez ele não faça ideia do quão triste seja viver em casulos, capas e armaduras. Viver somente de contagem de dias, sem de fato respirar a vida a plenos pulmões. Foi uma escolha fria, racional e decidida, de uma forma que muito o orgulha, mas que me provoca arrepios. Encantar, apaixonar e mergulhar talvez sejam minhas maiores necessidades. Desse jeito ele se acha imortal, eu o acho apenas um pedaço de solo incapaz de florescer junto a primavera.
Inconformo-me somente por conhecê-lo a ponto de saber que por dentro ele é flor. Dessas que nascem em ambientes áridos, mas flor. Cor. Vida. Lamento-me por ele quase matá-la todo dia, e alivio-me por ela precisar de tão pouca água pra sobreviver. Depois me pego pensando o porquê de eu ainda me inconformar, lamentar ou aliviar por um jardim tão secreto que nunca se foi visitado. Logo eu que mato violetas por falta de tato, me obrigo a ser paisagista de quintal alheio.
Assumo o sacerdócio de colorir vidas de pessoas como se não houvesse a opção de recursar. Mas entendo que cores vivas não se destacam sobre um escala de cinza a preto. Reconheço, por fim, que gente monocromática entedia fácil quem é colorido.
Ontem mesmo ele voltou aqui, mais uma vez eu não lhe ganhei. De novo não fui eu quem perdi
domingo, fevereiro 08, 2015
Carta pra quem já foi
Pra ler ouvindo
Eu deixei ir. Doeu. Mas foi. Com todos os medos e expectativas que nunca foram nem seriam superadas. Durante muito tempo eu achei que isso nunca ia acontecer, mas sabe, acontece quando a gente quer.
Eu deixei ir. Doeu. Mas foi. Com todos os medos e expectativas que nunca foram nem seriam superadas. Durante muito tempo eu achei que isso nunca ia acontecer, mas sabe, acontece quando a gente quer.
Um dia a gente cansa de dar murro em ponta de facas. A gente
acorda, se matricula na academia, muda o cabelo, apaga todos os vínculos
virtuais e vai. Vai tentar ser feliz, conhecer gente nova e, por vezes, repetir
erros antigos.
Mas sobre uma coisa me iludiram nesse novo mundo sem você, me
disseram que tinha um tanto de gente legal por aí, e eu não achei. Não achei
ninguém que entendesse minha fixação por datas, nem ninguém que gostasse de
escutar “música chata” naquele botequim cheio de pessoas senis que eu adoro ir
às quintas-feiras.
Procurei em boate, pagodes, no Tinder e no ambiente de
trabalho, mas por ninguém eu trocaria um sábado de churrasco com meus amigos,
como fazia para estar com você. Tentei pessoas iguais a mim, pessoas totalmente
opostas e nada.
E contando assim você pode até achar que foi um suplício
muito grande te procurar em novos rostos, mas no meio dessa procura quem eu
acabei perdendo foi você. De uma forma pouco explicável você também não se
encaixava mais aqui.
Eu ri quando percebi isso tudo, como também ri quando me
peguei usando das armas de sedução semelhantes a sua com uma pessoa que
dificilmente eu prolongaria o relacionamento.
Eu ri quanto te vi sendo feliz de uma forma que nunca tinha
visto. Tenho certeza que você riu quando me viu realizando sonhos.
Rimos, mesmo que se pudéssemos prever isso antes
apostaríamos todas as fichas no choro.
Você foi. Eu também fui. O que precisávamos um do outro foi
conosco. E agora quero vindas, pra vida inteira ou até semana que vem.
Sorte para as idas. Amor para as vindas. Felicidades pra
nós.
sexta-feira, novembro 21, 2014
O ermitão e a amante
“Se não for pedir muito, não seja tão pouco” ela repetia mentalmente cada vez que ele fugia do amor. Ela não sabia se sua intuição andava
falha ou se era realmente verdade essa sensação falsa que ela sentia toda vez
que ele maldizia as paixões.
Ela insistia em dizer que ele usava uma máscara barata de camelô, remanescente de um baile passado que ele decidiu levar para o resto da vida. Um Pierrot que amava a Colombina e foi trocado por um Arlequim. No carnaval de 1998.
Ela insistia em dizer que ele usava uma máscara barata de camelô, remanescente de um baile passado que ele decidiu levar para o resto da vida. Um Pierrot que amava a Colombina e foi trocado por um Arlequim. No carnaval de 1998.
Desde então ele foi fiel à cachaça, e só. Mas ela acusava-o:
a cara de durão não sustenta três doses de Red Label, o galinha da noite se desfaz
na primeira criança que ele pega no colo e as canções clichês já estão listadas
no iPod, só esperando uma moça certa.
Essa fantasia de Pierrot Alcoólatra não colava mais, ela argumentava.
Ele a encarava e não sorria. Consenso ou preguiça de discutir? Consenso ela garantia,
mas sem sucesso em convencê-lo a trocar o amargo Campari por uma maçã do amor
da quermesse.
Ainda ontem encontrou com ele no bar. Bem aprumado, copo
cheio e olhar vago. Ela não se aguentou, pegou um guardanapo e escreveu “Eu não
sei quem disse que não, mas o amor lhe cai bem, rapaz. Um sorriso no rosto
também”, fazendo o garçom de porta-voz.
Não duvidou que ele tenha dado um sorriso de canto de boca
quando leu o bilhete, mas não ficou pra ver sua reação. Gente que precisa de
pouco amor não pode oferecer muito, aprendeu ela, depois de tantos carnavais.
sábado, novembro 08, 2014
escreVER
Senta.
Abre o Word.
Digita.
Apaga.
Digita.
Distrai.
Abre outra guia, lê uma crônica.
Será que a Tati Bernardi sofre tanto pra escrever?
Coloca o chá de hortelã na fusão.
É sobre o que, mesmo?
Amor? Saudade? Vontade? Tesão?
Beberica o chá.
Precisa de açúcar.
(o chá ou o texto?)
Escreve.
Tá clichê, apaga.
Mas o amor não é clichê?
O chá esfriou.
“O documento foi salvo automaticamente”
Salvo de quem?
A gente só quer escrever.
Pra se encontrar.
E pra se esconder.
De quê?
Se soubesse não precisava escrever.
terça-feira, outubro 07, 2014
Até amanhã (fica?)
Essa não é uma carta de amor, pra se declarar ou jurar um
relacionamento eterno. Essa é uma carta de quem nem sabe o que é amor ao certo
e de quem morre de medo dele. Essa é uma carta de quem só quer que isso dure
até amanhã, mas que se for bacana e se estender até depois de amanhã, tudo bem
também.
Eu sei que você mal chegou e já tá indo, mas eu e esse meu
jeito de não saber dosar as coisas - ou demonstro muito interesse ou nenhum –
queríamos que você ficasse mais um dia, só pra ver que as primeiras vezes são meras encenações de pares perfeitos.
Fica mais um dia pra ver que eu adoro futebol-e-cerveja,
sei a regra de impedimento e a escalação do meu time. Pra ver que eu canto mal pra
caramba e é exatamente por isso que eu adoro um karaokê. Pra ver que eu não
tenho muito traquejo social. Pra ver que sou brega e ouço Fagner fazendo
coreografia. Pra ver que quanto mais sem graça é a piada mais eu gargalho.
Fica pra amanhã a gente rir de hoje e mesmo sem intimidade
nenhuma travarmos uma briga sobre quem de nós dois é mais idiota. Vamos bradar
argumentos de defesa e acusação alternados com travesseiradas e risos
escandalosos. Depois vamos diminuir a euforia e pensar que tudo isso é muito
bom, mas nossa oposição de ideias políticas nos mantém certos de que isso não vai longe demais.
Fica pra deixar mais chances para a saudade aparecer e daqui
10 anos a gente se perguntar “era bom, porque aquilo não deu certo?”. Fica pra
deixar arestas para a gente aparar sem compromisso em alguns encontros no
futuro. Fica pra você ter mais argumentos para ir embora e pra dar tempo de
levar mais alguns sorrisos embrulhados pra viagem, pode ser que você precise
deles no caminho.
quinta-feira, setembro 11, 2014
A fragilidade do nunca mais
Hoje eu acordei sem noção de onde havia dormido. Ainda
estava zonza da noite anterior e a primeira coisa que veio a cabeça foi o
arrependimento por ter exagerado na vodca. Eu já devia ter aprendido que ela
age de forma potencializada no meu corpo.
Olhei pra o lado tentando me localizar e te achei dormindo
com uma cara cheia de paz. Naquele momento os efeitos da ressaca se multiplicaram
por 10. Não acreditei que eu tinha feito aquilo, recair depois de tanto tempo
me mantendo firme era um absurdo. Então lembrei que ontem o absurdo era eu não obedecer
ao que eu queria. Estava indo tudo tão bem, sabe?! Eu nem ouvia mais a nossa
música tocando, já achava que o Cazuza tinha razão.
Continuei te olhando e relembrando cada motivo que tinha me
feito entrar e sair da sua vida. A fala calma, o sorriso lindo e uma penca de
divergências que nos fazia disputar argumentos com mais rivalidade que um
FlaxFlu. E percebi que esses eram exatamente os mesmos motivos que me fizeram
sentar ontem ao seu lado, com pose de bem resolvida e ao mesmo tempo com tanta
saudade do seu abraço.
Pensei que esse clichê de amor e ódio deve ser mesmo
verdade, andam tão juntos que deveria ser amoreódio, assim, numa palavra só. Eu
sei que Hollywood já explorou esse tema com exaustão, mas a dúvida sobre o que fazer
continua sendo um roteiro atual, e eu não sabia se me aninhava nos seus braços
ou se saía pé-ante-pé, rezando para que a vodca tivesse me presenteado com uma
amnésia alcoólica em você.
Por fim eu decidi que ir embora seria a coisa mais sensata
(não a melhor) a se fazer. Conferi sua estante de discos mais uma vez, para
continuar não ouvindo nada que me lembrasse de você, vi sua coleção de filmes
- muito maior que antes - e decorei alguns títulos para assistir depois. Quando
estava quase fechando a porta te olhei de novo e consegui entender: as pessoas
passam, mas um pouco delas ficam na gente. Voltei e te deixei um beijo na
testa, to levando seu cheiro comigo.
quarta-feira, julho 09, 2014
Voz viva
Eu acabei de descer do táxi e ainda não consigo digerir bem essa coincidência. Tanto tempo que não ouço falar de você, que eu não poderia imaginar que sua lembrança me apareceria assim, tão do nada, no meio da minha pressa e de bagagens pesadas, tentando não perder o ônibus.
O radinho do táxi estava alto, como sempre, e no meio da minha distração eu ouvi sua voz, pedindo um carro no endereço que eu sabia de cor. Mas eu nem precisava saber, a lembrança da sua voz ainda era viva o suficiente em mim, suficiente para que eu a identificasse no "alô". Naquela hora eu parecia estar com uma meia sufocando minha respiração enquanto as mãos suavam demasiadamente.
Eu acabei de chegar à rodoviária e já estou acomodada na poltrona do ônibus, mas minha cabeça foi embora junto daquele táxi. E eu não paro de imaginar como seria chegar à porta da sua casa dentro dele. Como você reagiria? O que eu falaria?
Faltam poucos passageiros para partirmos, mas meu coração ainda ta ressoando aquele endereço, aquela voz. Ta no repeat, toda hora eu fecho os olhos e ouço de novo, igual eu faço quando quero memorizar uma música. Para onde você estava indo? Não era para estar trabalhando? Será que você ta de férias e também estava indo viajar? E se eu descesse do ônibus e esperasse?
O ônibus já começou a andar e eu ainda estou imóvel. Meu coração ainda está acelerado como se toda nossa confusão tivesse acontecido ontem. Porque eu não peguei o outro lado da linha e respondi: "olha, sou eu, te amo, ainda quer voltar?". Mas eu já to indo embora, sabendo que eu agi certo, mas sem conseguir ser eloquente o suficiente convencer alguma parte de mim disso.
Já estou quase chegando, já passou a estrada toda e meu pensamento vaga sem sentido. Eu descobri que sei nada mais sobre seus passos, que você não sabe mais que discos eu ouço e que dificilmente a gente vai ter coragem de se ligar para saber do outro, por mais que não falte vontade. Resta-nos apenas aceitar que esse amor foi tão aleatório quanto tomar um táxi, tão breve quanto uma corrida e tão caótico quanto a hora do rush.
sexta-feira, junho 06, 2014
Jaz
Dribla o risco de vida
Egoísmo da semi-vida
Briga com o seguro de vida
Fim do ciclo da vida
Na dúvida sobre os paradoxos da vida
Sobra a morte...
Poxa vida
terça-feira, abril 22, 2014
Mini conto sobre dor, amor e amigos
Augusto hoje me chamou
para tomar uma brisa. Nessas horas a gente guarda toda inércia que nos faz
querer ficar em casa e vai, porque ver o mar acalma e um pedido amigo não se
nega. Quando a gente ta mal, a gente pede aos céus alguma forma de passar por
cima disso, e pra quem acredita, essa ajuda vem. Pra mim veio pelo meu amigo,
que não me disse nenhuma palavra de conforto, mas me fez descobrir que, por
vezes, nossas dúvidas não precisam de respostas imediatas.
Augusto também tinha uma dor, que eu não sei precisar na escala de dores se era maior ou menor que a minha. Mas não era a minha, o que me fez facilmente discorrer uma longa explicação do porquê a gente precisa passar por aquilo. O Augusto não ouviu, chorava demais para ouvir aquilo. E eu me surpreendi ao perceber que eu falava tanto era para mim mesma.
Deixei o Augusto com outro
amigo e voltei pra casa pensando sobre as dores que a gente passa. Depois dessa
tarde a minha é menos pesada. Não por que eu a dividi com alguém, mas por que, mesmo
contrariando a matemática, ao somá-la a outra, ela diminuiu.Augusto também tinha uma dor, que eu não sei precisar na escala de dores se era maior ou menor que a minha. Mas não era a minha, o que me fez facilmente discorrer uma longa explicação do porquê a gente precisa passar por aquilo. O Augusto não ouviu, chorava demais para ouvir aquilo. E eu me surpreendi ao perceber que eu falava tanto era para mim mesma.
Augusto
acha que agora ele precisa de um porre, uma viagem e um novo amor. Também acho
que ele precise. Mas desejo, de verdade, que ele encontre alguém com outra dor
para somar, e respirar um pouco mais aliviado ao entender o que eu entendi hoje.
quinta-feira, março 27, 2014
Talvez o fim
Para ler ouvindo
Não vou procurar seu cheiro pelos lençóis, porque é certo
que vou encontrar. Aliás, preciso anotar na agenda de colocar toda a roupa de
cama na lavanderia. Em períodos de abstinência não posso correr o risco de te
achar perdido por aqui. As fotos já foram. Não viraram cinzas porque não queimo
o passado, mas saíram do mural e foram morar em uma caixa junto a outras
experiências mal sucedidas.
Já fumei mais que devia hoje. Eu sei que te jurei parar, mas
ou eu me afasto de você ou do cigarro, dos dois eu não aguentaria. Sei que meu
coração tá frágil, bateu mais que o normal dias atrás, mas o doutor não soube
me dizer se foi saudade ou algo menos sério.
Já tomei meu chá da noite, por mais que preferisse que fosse
uma cerveja naquele bar que a gente sempre frequentou e hoje não vamos mais, um
com medo de encontrar outro. A separação é realmente confusa. Você também se confunde
entre tentar se esconder e ser feliz?
A felicidade ainda mora aqui. Minha gargalhada ainda é
escandalosa, não se preocupe. Falta algo que talvez nem seja você, ou nem seja
pra ser suprida. Talvez nem fosse pra ser. Talvez o tempo tenha falhado, ou
talvez ainda, esteja em um acordo com o destino, preparando algum outro ‘talvez’
mais exato.
Tanto talvez que no fim não deu certo. Mas, tenho certeza,
não ter fim também não daria.
segunda-feira, março 10, 2014
Escarcéu
Logo o mar
Que do doce sempre se origina e a cabeça lhe desatina,
Ao léu
Logo a maresia
Que úmida e fina lhe domina
E lhe faz réu
Logo a traquina
Com pose de bailarina, que nunca declina
E quer o céu
Logo ela
Que sempre desafina, mas virou maestrina
Em cima do bailéu
Logo essa menina
Que arde como uma tristeza fina, em minha rima submarina,
Virou troféu.
Que do doce sempre se origina e a cabeça lhe desatina,
Ao léu
Logo a maresia
Que úmida e fina lhe domina
E lhe faz réu
Logo a traquina
Com pose de bailarina, que nunca declina
E quer o céu
Logo ela
Que sempre desafina, mas virou maestrina
Em cima do bailéu
Logo essa menina
Que arde como uma tristeza fina, em minha rima submarina,
Virou troféu.
sexta-feira, fevereiro 14, 2014
Monólogo dos quereres
Desculpe-me começar
falando assim, sem floreio nem rodeio, mas há tempos uma dúvida me angustia: o
quanto de beleza há no querer? Um querer desses cheios de certeza. Querer,
moço, sabe como? Como quem quer um sorvete de chocolate em um dia calorento.
Não, não é amar. Amar é outra coisa. Diferente, muito diferente. Amar é
precisar. Eu não preciso, eu quero! Hã? Não há doçura? Pois pra mim só há. O
que é mais livre: necessitar ou querer? Pois pra mim o querer é desprezado.
Conheço quem ama sem querer, mas não é lindo querer amar? Não? É sim. O querer
assume todos os riscos do que quer. O amor não! As pessoas amam o que a sorte
diz, o querer quer o que escolhe, simples né?! Não, não é assim, não é um querer
simples é "querer querer", "querer bem", "querer estar
perto", conheço tanto amor que não quer, que não se suporta mais. Ainda há
amor, mas falta o querer. Querer é escolher estar, mesmo que não haja nenhuma
amarra que faça ficar. Não é magnífico? E quanto ao não querer? Ele é o maior
desamor que existe, não concorda? Pois quando se ama e não se quer, não adianta
mais o amor. Tô sendo racional? Talvez. Mas pra mim o querer é colorido,
cheiroso e tem muito valor. Não acha, moço? Ei, volta aqui, me ajuda, não
acabaram minhas indagações. Você não quer ouvir mais? Espera, ainda tenho outra
dúvida, moço: E afinal, querer é poder?
quinta-feira, janeiro 30, 2014
Novos anos
![]() |
| Anne Frank |
Todos os anos minutos antes do réveillon eu fico com uma
angústia de deixar aquele ano ir embora. Bom ou ruim o apego com aquele jeito
de fazer as coisas me ronda e me questiona se é mesmo preciso mudar tudo
completamente. Mas eis que chega a contagem regressiva, e aquele coro do 10 ao
Feliz Ano Novo empurra todo o medo pra lá e enche o peito de uma vontade de
fazer tudo diferente.
Tenho minha relação íntima com o ano novo, e um misto de
amor e ódio com mudanças. Algo mais incerto que desejar mudar e morrer de
saudade do que já passou? Mas são de réveillons que vivo minha vida. É réveillon
toda vez que eu estou diante de uma grande mudança, a decisão sufoca até
começarmos a contar os segundos e depois alivia.
Réveillon é recomeço, e recomeçar é continuar sendo você, só que de outro ângulo. É
fazer de cada primeiro de janeiro uma renovação e de cada dia um novo primeiro
de janeiro. É ir, vir, voltar, contornar, (re)voltar e ainda se reconhecer nessa
confusão que é sermos nós mesmos.
Hoje é o ano novo chinês. Amanhã também é réveillon, o de fevereiro.
No próximo domingo é réveillon da semana e toda noite é um pequeno réveillon. O que importa, na verdade, é ser novo, seja o
ano, o mês, a semana, o dia ou a atitude.
"Ano novo/ Anos buscando/ Um ânimo novo” - Leminski.
sábado, dezembro 21, 2013
Redundância
Juntei todas as frases soltas do bloco de notas do celular,
revi todos os meios poemas que deixei no rascunho do email, parei para pensar
sobre todas as dúvidas que ainda permeavam minha cabeça – mesmo depois de tanto
tempo – e ainda não sei por onde caminhar com essa meia rima que existe sobre
você.
O Tempo pela janela é poético, e eu poderia começar igual
àquela música: “chove lá fora e aqui, faz tanto frio...”, mas o suor na minha
testa avisa que talvez eu não combine com música nenhuma, e por mais que eu
queira ter uma trilha sonora, dessa vez não vai haver uma música cantando a
gente.
As canções clichês não combinam com nossa confusa relação. É
que talvez a gente não sirva para ser contado, cantando ou declamado. No máximo
seríamos personagens de algum filme de baixa qualidade, que os créditos sobem
enquanto você ainda se pergunta “Qual é a moral da história?”.
Falta moral e falta amor. Próprio ou a reciprocidade.
Teimosia tem, sobra inclusive. Sobra também aquele abraço e um monte de sonhos
perdidos na minha gaveta. Nessa gaveta tem muita coisa, sentimentos e um desejo
secreto, só falta mesmo é a coragem para rimar em outro soneto.
terça-feira, dezembro 10, 2013
Incômodo Inerte
Remexo os
lembretes
Tento
palavras que completem o pensamento
Bagunço a
mente,
A procura
de algo que me acalme o momento, em vão
Não acho
a oração que afronta
Pego uma
dose por conta
Rabisco uma anotação
Rabisco uma anotação
E tonta
busco achar um espaço, um vão
Que me
traga o vento no rosto
Que
mostre a rua onde passa o amor
E aqueles
doentes de paixão
Que
seguem sofridos e trôpegos, mas vão
E por
aqui não sobra uma rima,
Que me
responda à dúvida sem titubear:
Por que
nesse caminho louco, por aonde eles vão
Eu resolvi ficar?
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