É que, no fim, aprendi a me virar bem.
“Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”
Carlos Drummond de Andrade
“Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”
Carlos Drummond de Andrade
O amor nunca morre de morte natural. Anaïs Nïn estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.
No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.
Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.
- Fabrício Carpinejar
Não quero ser... sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando. (Pablo Neruda)

É dia de despedida, de medo, de paz, e um monte de coisa que eu não sei o nome. É dia de ir, não pra longe, só pra dentro de mim mesma. É dia de adeus, não a você, mas a parte de mim que ama você. Hora de dar tchau a esse misto de agonia e felicidade que havia junto. Despeço-me dos delírios, do caminho que meu pensamento fazia, correndo em toda hora vaga, para perto de ti. É tempo de saber que não é só seu perfume que me acalma ou que não é só sua fala – pausada - que me nina. Enterro esse amor, os planos e todas as noites que sonhei pra nós. Sinto-me, de novo, livre para viver mais e sonhar, quem sabe dessa vez com dias ensolarados com outro alguém à beira mar. E nessa despedida estamos juntos, como sempre, de mãos dadas, sorrisos largos e livres de todo o muro de meias palavras que nos cercava. E que seja assim, pra sempre, e se tivermos sorte, um sempre que demore a passar.
Que sejamos felizes, meu doce vários meses.
"Uma saideira, muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde."