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quarta-feira, fevereiro 27, 2013

O tempo passou na janela



Nota: Tem dias que a gente pede respostas, e hoje eu recebi três de uma vez só. Um texto pronto na cabeça, um poema de Drummond na TV e uma música no rádio. Poderia ter ignorado, mas resolvi que viraria post.



Dizem que desespero mesmo é rir da própria tragédia. E confesso que é o que resta. Resta sorrir quando lá fora, uma rosa morre e uma festa acaba. Sorrir, porque como bem disse Chico: “seu pranto não vai nada ajudar”.
Em meio a rosas nascendo, o mundo sambando e estrelas caindo eu vejo o seu barco partindo, a confiança do cais ruindo e o abraço apertado afrouxando. Desfazendo fácil, tal como o cadarço daquele All Star que eu amo, sabe.
Mas e o tal amor pra onde foi? Ah, não sei. Perdeu-se, ou achou-se em algum rosto de sorrisos mais largos que os meus. E o meu amor pra onde foi? Foi junto, ele não sabe viver sozinho.
 E quanto a mim, to (r)indo.
É que, no fim, aprendi a me virar bem.

“Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”
Carlos Drummond de Andrade

domingo, fevereiro 24, 2013

Quantas vezes eu assassinei o amor?


O amor nunca morre de morte natural. Anaïs Nïn estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.
No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.
Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.
- Fabrício Carpinejar

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Conto, confete e serpentina


Foi só mais um desencontro de carnaval, 
um amor de serra que poderia descer para pegar uma praia.
 Mas assim é a vida amorosa dela, tão instável quanto as ladeiras de Minas.
 


sexta-feira, janeiro 18, 2013

Alamedas da vida



Somos uma avenida de mão dupla, nossas faixas são próximas, mas o córrego que passa no meio tem uma ponte estreita, em que palavras não passam. Nossas ruas paralelas permanecem lado a lado por um longo caminho, mas não há retornos. A gente se cruza, sempre em direções opostas. Eu tento ouvir o que tens a falar, mas você só sorri um riso tímido, e eu quase me sinto culpada por querer verbalizar nossos breves olhares. Você passa, mas são seis da tarde, chove e os carros engarrafam. Buzinas, caos e confusão, é assim todo começo de noite, nas ruas da cidade e nas esquinas do meu coração.


terça-feira, janeiro 01, 2013

Ano Novo


Que todos os 365 dias de 2013 sejam primeiro de janeiro.


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quinta-feira, dezembro 27, 2012

Sem mais nem porquê




Me falaram que eu só falo sobre finais. E é verdade. Tem anos que eu procuro um fim, mas confesso que, não sei se algum dia quis de verdade ir embora. Também não quero ir agora, apenas tenho. Tenho, porque tem um mundo que me espera. Tenho, porque não vou admitir continuar vivendo uma vida morna e cheia de conformismo. Tenho, porque chega uma hora que não rola mais. Uma amiga um dia me disse que se sentia como se andasse carregando um baú precioso e muito pesado por uma longa estrada. Só que chega uma hora que a gente não tem mais forças, e tem que escolher se segue sem o baú ou se fica ali parada com ele para sempre. E acho que esse é o melhor resumo do que vivo. Eu decidi deixar o baú pesado e seguir. Mesmo sabendo que logo atrás de mim vai ter alguém com força suficiente para levar esse baú para sua vida. Olha, eu tenho certeza que não vai ser fácil (já não está sendo). Eu vou ficar aflita por notícias suas, vou ter que deletar seu número da agenda do meu celular, para que eu não te ligue na noite de réveillon, depois de alguns pro seccos. Vou ficar alternando entre te bloquear ou não do chat do Facebook. Porque vai ter hora que vou querer te ignorar, mas em outras vou precisar ver aquela bolinha verde e entender que de alguma forma você está aqui, por perto. Acho que vai ser difícil para você também, sei que era de verdade nossos abraços apertados e demorados. Talvez você sinta falta deles, das conversas aleatórias e de todo zelo e carinho que tínhamos. Me perguntaram se eu tinha certeza que te amava. E eu disse com todas as palavras que sim, tinha. Porque nunca ninguém me fez tão bem e tão mal ao mesmo tempo. E acho que amor é isso mesmo, uma confusão, um sufoco no peito, e ao mesmo tempo uma paz, uma leveza no andar e um sono com sorriso nos lábios. Mas dessa vez até o meu amor quer ir embora, ele também cansou. Se eu tenho dúvidas que você é o amor da minha vida? Não. Nenhuma. Apenas acho que posso encontrar outros por aí. "Tem muito mundo pelo mundo" é o que sempre me aconselha uma grande amiga. E lá vou eu, sem certeza de nada, tentando achar sentido em tudo e descobrindo como lidar com cada novo dia. Dessa vez termino esse texto tal qual nossa história, sem saber como.

sexta-feira, novembro 16, 2012

A carta que eu não mando



E em uma atitude de desespero eu decidi que eu queria tentar te contar tudo que nunca dissera antes. Contar sobre tudo aquilo que me fez chegar até aqui, e que talvez você nunca tenha entendido. Eu queria era poder  te contar de tudo, desde a primeira vez que meus olhos encontraram os seus, assim, tão clichê quanto cantou Tom Jobim. Te falar das explosões pouco conhecidas que eclodiram em mim, do vício que nasceu, tão prematuro, de ser vista por você. Dizer da certeza que eu tive, desde a primeira vez, que o nosso encontro deveria acontecer naquela hora. Queria te pontuar que, apesar dos anos ainda não terem me explicado o nosso achado, e por vezes eu até o mal dizer, isso logo passa, sempre que me pego rindo do teu riso. O que eu nunca comentei é do nosso habitual encontro noturno, cada vez que me deito tentando não sonhar com você, das noites que você cuida para que minhas oito sagradas horas de sono sejam felizes. Falaria do desejo que arde em mim, das inúmeras coincidências que nos cercam e do quanto seu jeito me causa uma adorável raiva. Diria que os céus conspiram ao nosso favor, mesmo que eu não tenha certeza disso. Se eu pudesse, contaria muitos segredos do meu fantástico mundo imaginário, sobre tantas coisas eu te falaria… Mas não posso.

Não quero ser... sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando. (Pablo Neruda)

sexta-feira, outubro 05, 2012

Eu por ele



Vou dormir a noite tendo a certeza de que hoje foi a última vez que a vi. Não quero (mais). Mas como uma forma de conspiração, até os meus sonhos já se acostumaram com a sua presença, e sua companhia me rodeia por toda a madrugada. O galo canta, a noite vai embora e eu me encho de esperanças de ser feliz só. Eu chego a acreditar que “dessa vez vai”. Mas dizem que o destino quando não tem o que fazer, brinca com a gente. Ou seria essa sua única função? Criar situações, encontrões de pessoas que se odeiam, ou se amam demais.
Sendo assim, por mais uma vez o imã dela atraiu meu olhar em sua direção. É como se eu ouvisse, cada vez que ela me chama em silêncio. O som do nosso amor é proporcional ao cabimento que ele tem. Nenhum. Nenhum murmúrio, nenhum sentido, nenhuma palavra, nenhuma verbalização. São dois corpos movidos pelo desejo insaciável do prazer, buscando no outro uma forma de ser feliz. Somos felizes, com ou sem o outro, somos. Só não sabemos mais ser. Somos quietos, cheios de não querer, de rótulos, e... tá, confesso, de medo. Muito medo.  E por mais que eu tente esquecer o jeito doce como ela me beija; o perfume cítrico; e o cabelo embaraçado no fim, sempre fica um aperto, um nó atado e sem pontas para puxar.
Somos o que nunca houve, o que não começou. Mas chega a madrugada, os sonhos, o dia, o medo... e nos transformamos, na verdade, no que nunca acaba.